A diversidade dos contextos socioculturais e a formação do educador musical
Magali Kleber
5 de Janeiro de 2008
A perspectiva que pretendo focalizar como diversidade de contextos socioculturais é voltada para um pensamento que contempla a multi e a transdisciplinaridade, o contextual considerando o global, em oposição ao pensamento fragmentado, de caráter tecnicista, que tem orientado muitas das práticas educativas tradicionais.
A diversidade cultural traz no seu bojo diferentes formas de conhecimentos, experiências, valores e interesse humanos. A velocidade que se imprimiu no fluxo das informações nas últimas décadas acentuou a sobreposição de contextos socioculturais, criando uma dinâmica, sendo o espaço privilegiado da economia, da política, das relações sociais e da educação.
Nesse panorama, concepções de educação emergem ampliando o espaço restrito do contexto esccolar, implicando muitos desafios para qualquer educador atuar hoje. E penso ser significativo destacar aqui que um dos focos a ser fortemente considerado é o olhar para a cultura que evoca diferentes dimensões da vida social. Essa questão está ligada à construção das identidades socioculturais e a conseqüente valorização e desvalorização de grupos sociais e suas inserções nos processos políticos, éticos e estéticos.
Trata-se de questão importante para nós educadores, uma vez que está ligada a concepções da cultura instituída e valorizada e das outras culturas e que determina o que é considerado válido ou não no recorte do conhecimento a ser selecionado nos contextos educacionais. Essa oposição vem sendo debatida e apontada em muitos campos do conhecimento e reconhecida como ponto de conflitos presentes na sociedade contemporânea. Esse é um dos desafios importantes para o educador musical pois implica em se estar disponível e receptivo para aprender e dialogar com universos diversos.
Tal perspectiva nos favorece transitar em múltiplas direções para atuar de forma criativa em situações inusitadas, o que implica uma formação que rompa com a construção do conhecimento em que se prevaleça o processo de transmissão, restando pouca uma participação ativa dos envolvidos. Esta perspectiva, também, modifica e desloca o papel do professor como aquele que detém o conhecimento a ser transmitido e possibilita um processo dialógico na construção de novos conhecimentos, antes fora da pauta, trazendo para o contexto o mundo social dos participantes, criando dinâmicas relacionais muitas vezes inusitadas e inovadoras. As práticas culturais e artísticas transitam no âmbito do mundo simbólico do ser humano e estão entre os grandes eixos de construção de identidade social e cultural.
Essa é uma perspectiva crítica que possibilita ao educador romper com o estabelecido a priori e potencializar a diversidade cultural como algo positivo em sua prática educativa. Sacristan (1998)1, educador espanhol da atualidade, propõe a inter-relação entre as diferentes modalidades de conhecimento que ele denomina: conhecimento pessoal/cultura, conhecimento popular, conhecimento acadêmico dominante, conhecimento acadêmico transformador, resultando dessa inter-relação o conhecimento escolar.
A expressão artística, reconhecida como canal essencial na humanização das relações sociais, delineia-se no âmbito da cultura e pode ser entendida como um processo pessoal e social de conhecimento e autoconhecimento no qual os sujeitos constróem suas identidades no seio das práticas sociais. Este processo de conhecimento privilegia dimensões humanas que somente a arte pode fazê-lo. Sabemos que o conhecimento do mundo não se dá somente por meio de conceitos logicamente organizados, mas também pela imaginação, criação e pela intuição2. A arte é um canal de entendimento intuitivo do mundo, tanto para o sujeito que cria uma obra quanto para o apreciador que busca penetrar-lhe o sentido.
Os sentidos humanos interpretam e criam formas simbólicas por meio da experiência estética e artística. Estes sentidos não podem ser reduzidos ao discurso verbal. Antes de ser explicada, a experiência estética precisa ser sentida. As obras de arte sintetizam modos e conhecimentos artísticos e estéticos de seus autores. Têm, portanto, história, situam-se em um contexto sócio-cultural e refletem concepções de mundo, de ser humano, de gosto e também valores dos respectivos grupos sociais. É por isso que a arte mobiliza práticas culturais, mostrando esteticamente múltiplas visualidades, sonoridades, falas, movimentos, cenas produzidas e interpretadas.
O significado da prática musical, nessa perspectiva, relativiza-se e contempla a relação entre a obra e o sujeito possibilitando entendê-la como uma construção carregada de subjetividade. Assim, os valores estéticos não podem ser fixados de maneira permanente nem pela arte nem pela crítica. As práticas musicais servem à vida e não prescrevem um modo definido e limitado de viver, mas, ao contrário, impelem a uma atitude renovada frente às situações ordinárias do cotidiano. Numa perspectiva educacional, devem estar relacionadas com as experiências e condição humanas, pois viabilizam o que há de mais íntimo no indivíduo podendo ser mediada pelo não convencional, podendo, inclusive, romper com valores pré-estabelecidos.
O Brasil possui uma riqueza cultural e artística que precisa ser incorporada, de fato, no seu projeto educacional. Isso só acontecerá se escola e espaços que trabalham com educação começarem a valorizar e incorporar, também, conteúdos e formas culturais presentes na diversidade da textura social. Existem culturas que ainda sofrem com a marginalização e necessitam, portanto, do reconhecimento nas agendas de políticas culturais e educacionais, não só como ferramentas de auto-estima ou símbolos folclóricos, mas como alternativa inteligente para gerar bônus educativo, social e econômico, inclusive. Reconhecer esse espaço estratégico de ação do Estado exige uma postura política inclusiva e pode ser visto como um outro significativo desafio para o educador musical, pois projeta, irremediavelmente, as ações socioeducativas para os espaços informais, os espaços comunitários que já trazem inerentes as práticas musicais variadas das ruas, bailes, festas, escolas, rituais religiosos, concertos abertos, etc. Trata-se da abertura para espaços reais e simbólicos de criação artística e desenvolvimento sociocultural, proporcionando formas concretas de mediação entre a cultura e a educação e o cidadão.
Cabe ao educador aprender a ler a dinâmica dessa realidade complexa, costurando o saber científico, o saber popular e a prática social. Muitas vezes, as práticas na educação musical enfatizam os estudos das linguagens e idiomas musicais visando dar conta de um repertório prescrito, perpetuando-se assim formas e conteúdos com pouca conexão com a realidade do cotidiano do aluno, além de não contemplar a diversidade dos contextos musicais presentes na textura social. Uma educação musical inclusiva abarca as diversas práticas e manifestações musicais, o que quer dizer que inclui a priori os sujeitos que estão envolvidos nela. E incluir quer dizer: considerar seus valores simbólicos sem discriminação e/ou prescrição.
Ao se pensar num caminho para minimização do processo de exclusão social e da erradicação da miséria, principalmente a miséria da dignidade humana, não se pode pensar em políticas sociais compensatórias, mas em ações em que o lucro seja, de fato, social, incorporando um potencial produtivo não aproveitado, represado nos contextos em que os valores culturais e simbólicos são, a priori, desvalorizados. Cabe aqui questionar a equação entre a discriminação, a exclusão social, a violência urbana, o estigma permeando as comunidades carentes dos moradores dos morros e favelas, reforçados pelo discurso da mídia, que é negado e re-negado pelos moradores desses espaços urbanos, postos em depoimentos públicos e em entrevistas de pesquisas acadêmicas. Qual é o papel do educador musical e da cultura, nesses contextos?
Todas essas questões podem ser entendidas como formas que geram conhecimento, incorporam problematizações de questões aparentemente adjacentes ao processo de ensino e aprendizagem de qualquer área. Estão profundamente imbricadas com encaminhamentos e decisões. Exigem reflexão, análise e comprometimento, pois são tais fatores que têm a possibilidade de enredar novos espaços físicos e socioculturais, performances na vida cotidiana, conectando os aspectos ético, estético, social e político com a perspectiva de uma transformação social, sem maquiagem.
Nesse sentido é que as práticas musicais se mostram como um fator potencialmente favorável para a transformação social dos grupos e indivíduos. Poder contar com seus valores musicais no processo pedagógico-musical pode se tornar um ponto significativo para um trabalho de ampliação do status de “ser músico” ou de participar de um grupo musical.
A perspectiva pluricontextual contempla a complexidade que se apresenta no processo pedagógico-musical, pois oferece a possibilidade de se apreender, simultaneamente, diferentes aspectos da realidade social, acentuando os processos coletivos presentes na constituição da identidade sociomusical dos diversos grupos sociais.
Portanto, as práticas musicais assim consideradas só podem ser pensadas sistemicamente onde não há espaço para uma produção do conhecimento musical descolado dos contextos, do processo como um todo.
Ressalta-se que todas essas formas de conhecimento estão imbricadas com práticas musicais e entrelaçadas por questões estéticas, éticas e políticas. Os rituais coletivos como as aulas, os ensaios, os jogos, as brincadeiras e os encontros informais mostram-se como momentos de síntese das relações e das vivências proporcionada pela música. O lazer, o aprender a tocar “naquele lugar com aquelas pessoas”, criar e/ou cuidar dos instrumentos musicais, realizar uma produção musical, os encontros com os amigos fazem parte de um contexto próprio e devem ser consideradas no processo pedagógico-musical. Visto assim, esse processo refere-se à gestalt da experiência musical, não fragmenta a estrutura musical mas, antes, busca imantar a experiência de conceber e vivenciar a idéia estética na sua completude, imprimindo-lhe outra dimensão, ou seja, aquela ligada a vida vivida.
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¹ SANTOMÉ, J.T. Globalização e Interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
² Como a própria palavra indica – tueri= ver -, intuição é uma visão súbita, inefável, inexprimível. É uma possibilidade para a invenção, a descoberta, os grandes saltos do saber humano.
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23-03-2008, 23:00
O conteúdo texto é muito bom, porém, constam vários erros de digitação.
Gostaria de ser informado assim que se fizer uma revisão, pois pretendo discutir
o texto com alunos de um curso de Licenciatura em Música.
24-03-2008, 11:02
Caro Rodrigo,
obrigada por participação e observação. Estarei revisando o texto e disponibilizando
o mais breve possível.
Um grande abraço,
Magali Kleber
29-03-2008, 9:09
Prezado Rodrigo,
o texto foi revisado.
Espero que, agora, você possa compartilhar com seus alunos.
Um abraço,
Magali
02-11-2008, 18:40
Magali
Gostei muito do texto! para pensar e repensar nosso fazer musical. Vou recomendar…
03-11-2008, 8:16
Obrigada Márcio!!
É muito gratificante receber um retorno positivo e saber que podemos compartilhar ideais e lutas.
Abraços,
Magali