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Definindo o “Orientalismo musical” cinematográfico

Bernardo Rozo
23 de Abril de 2008

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Nesta oportunidade, como eu disse, gostaria de revisar um pouco o que entendo por “orientalismo”, e ainda mais, por “orientalismo musical”, no entorno, é claro, das produções musicais cinematográficas. Para isso, é preciso começar com uma breve referência sobre quem cunhou o termo: Edward Said.

Além da política e da literatura, outra grade paixão de Edward Said (1935-2005) foi a música clássica ocidental. Intérprete prodigioso do piano e excelente crítico1, Said acreditava firmemente na força da música na união dos povos no mundo inteiro. A sua demanda de respeito e justiça entre as culturas ligam com força extraordinária sua paixão musical com uma das posições políticas mais críticas da literatura no século XX2. Sua polêmica posição me inspirou na reflexão dos usos que se fazem da música nas linguagens visuais, principalmente com relação às suas implicâncias políticas.

Infelizmente, o foco das criticas de Said não foi a música, e sim a literatura. Interessou-se pela produção intelectual de significados recorrente nas tradições intelectuais existentes. Said se propôs redefinir o texto, o qual ele considerava um produto seriamente determinado por condições sociais e políticas reais: o rasgo mais importante de um texto é o fato de sua produção, assim como as condições específicas que geram sua capacidade para produzir significado; portanto, todo texto restringe sua própria interpretação, e, dado que eles se desalojam e se deslocam uns aos outros, os textos são essencialmente atos de poder3.

A partir dessa plataforma, ele estruturou uma forte crítica às produções literárias cujo assunto principal era o mundo islâmico – sobretudo nas publicações de História Moderna –, produções feitas nos países que comumente chamamos de “ocidentais”, como Inglaterra, França e os Estados Unidos. A partir disso, ele rastreia a emergência histórica dos etnocentrismos literários4 que minimizavam e banalizavam as culturas do Oriente. Assim, em um trabalho de vários anos, chega à conclusão de que, além da dominação de Ocidente sobre Oriente – mediante a força e a exploração econômica –, Oriente é virtualmente uma invenção daquelas disciplinas européias que se propuseram estudá-lo. Então, chama de “Orientalismo” a uma forma intelectual de imperialismo epistemológico, em tanto que “instituição corporativa” para aceitar um conjunto de idéias sobre o Oriente que por sua vez, se auto-autorize e seja usado como veículo formal de dominação.5

Usando vários exemplos de autores como Macaulay, Renan, Marx, Conrad, Jane Austen, Camus, entre muitos outros, Said analisa os estereótipos e distorções que existem nos textos publicados, através dos quais o Islã e o Oriente foram representados. E o que ele achou nessa trajetória não foi pouco: o Islã como imitação herética da Cristandade, a sexualidade exótica da mulher oriental; o Islã como fenômeno extraordinariamente unitário e como cultura incapaz de inovação; os membros do Islã como fanáticos e fundamentalistas anti-norte-americanos6. Esta analise demonstra como estas construções foram se espalhando além do mundo árabe, chegando também sobre a África, a Índia e o Extremo Oriente, regiões que também eram objeto do vasto sistema de dominação cultural imperial.

Mas, nesta relação complexa, a idéia do Oriente, segundo Said, acaba sendo um meio de auto-definição da cultura ocidental: paradoxalmente, o Oriente não é apenas o lugar de origem das línguas e cultura européias, mas também uma imagem européia indispensável do Outro – e que faz possível que os contextos, como o europeu, se definam a si mesmos! Com os anos e fruto da ampla produção intelectual do Hemisfério do Norte, surge desta maneira, segundo Said, um Outro idealizado: uma necessária alucinação7.

Em suma, o conceito de “Orientalismo” de Edward Said nos apresenta de forma evidente a natureza política e ideológica de todo discurso, e as formas com que ele intervém na construção artificial de imagens falseadas da realidade, como geralmente acontece com aquelas que têm a ver com a diferença cultural. Ao traduzirmos esta avaliação crítica além da literatura ocidental, podemos encontrar outros discursos que constroem aparatos fortemente ideológicos sobre as idéias de propriedade, legitimidade, autenticidade, tradição e direitos. Um exemplo disso, certamente, é a música.

Inspirado no “Orientalismo” de Said, considero crucial revisar qual a relação entre a categoria “Outro” e a música, sendo aquela uma categoria que é permanentemente construída tanto por uns quanto por outros (lembremo-nos da conflituosa tensão que existe entre as identidades culturais assumidas e as identidades culturais atribuídas). Disso podem surgir inúmeras questões sobre as quais poderíamos refletir juntos: como entender a relação entre a construção imaginária, as representações sociais e as formas expressivas concretas, como a música? Que tipo de método nos permitiria uma aproximação suficientemente abrangente para considerar matérias musicais e matérias extramusicais? e assim por diante.

De fato, as minhas idéias não procuram algum estatuto de “verdade única”. Apenas uma ampla e fértil discussão com os colegas seria um ótimo resultado, além da esperança de poder contagiar aos caros leitores com um pouco de curiosidade sobre tais assuntos.

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Com estas idéias, não tenho em mente a necessidade de procurar essências culturais. Pelo contrário, acredito muito na capacidade inovadora dos seres humanos e da força de transformação constante das sociedades –mesmo que, muitas vezes, elas apareçam como estáticas e imutáveis. Meu foco de atenção se concentra, melhor, nos USOS das músicas como veículos de sentidos e significados, cuja força é suficiente – e às vezes surpreendente – para criar opinião8.

Embora possa resultar sendo uma categoria muito interpretativa e até escorregadiça, o conceito de Orientalismo nos coloca perante um fato evidente: uma forma intelectual de imperialismo epistemológico de dominação. Ainda “flutuante” nos produtos literários, como este conceito poderia nos ajudar na abordagem do sonoro Daí que entendo por “Orientalismo Musical” a forma como certas criações (leia-se: intenções criativas) em música (leia-se: composições musicais), dirigem abruptamente todo o seu peso semântico – junto com todos os recursos e figuras que o expressam – para a produção e/ou reprodução de uma construção social histórica sobre a alteridade cultural, gerando assim, tanto materiais musicais quanto extra-musicais9.

E, se assim for, será que as tais mensagens sonoras conseguem coincidir com os sons que expressam com fidelidade (leia-se: níveis de proximidade com o real) essa tão “célebre” alteridade cultural representada nos filmes, e ainda mais, se os membros dessa alteridade tivessem a chance da escolha, será que elegeriam justamente essas músicas – dos filmes –, usando-as como material sonoro de auto-representação Contudo, como diferenciar uns sons de outros Será que existem diferencias que vale a pena procurar neste campo10

É preciso deixar de crer que os compositores cinematográficos são meros técnicos executantes das idéias de um diretor ou de um roteirista, já que ambas, música e imagem, são responsáveis de tudo o que os espectadores guardam na memória. Neste sentido, que suas composições musicais sejam objeto de mediação dentro de um filme (pois elas raras vezes são tocadas ao vivo), o compositor tem uma enorme responsabilidade devido ao extremo poder que as suas músicas têm perante as audiências. O digo de novo: a gente não esquece o que vemos/escutamos nas Salas de Exibição.

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Notas

1 Alguns dos trabalhos de Edward Said, especificamente sobre a música, são: 2002, Parallels and Paradoxes: Explorations in Music and Society, Pantheon (com gravações das discussões sobre música realizadas com o músico e regente Daniel Barenboim); 1991. Musical Elaborations. New York: Columbia UP; 1982, “The Music Itself: Glenn Gould’s Contrapuntal Vision”, In: Glenn Gould: By Himself and His Friends, John McGreevy, Ed., pp. 45-54. Garden City, New York: Doubleday.
2 Dentre as várias obras publicadas, destaco: 1993, Cultura e imperialismo; 1983, The World, the Text, and the Critic; 1981, Converting Islam, 1978, Orientalismo; entre outros.
3 Edward Said, 1983. The World, the Text, and the Critic. Pp. 39-40, 45.
4 O etnocentrismo será a tendência do pensamento a considerar as categorias, normas e valores da própria sociedade e/ou cultura como parâmetro, senão superior com relação às outras sociedades e culturas, aplicável a todas elas. Se for literário, um etnocentrismo desta natureza criará e reproduzirás tais idéias, no contexto das obras e eventos ligados à literatura.
5 Edward Said, (1978) 1990. Orientalismo. p. 1
6 Ibid, p. 65-66; 187; 296-298.
7 Ibid, p.3
8 Bernardo Rozo, 2007. “‘Orientalismo Musical’? Nos Filmes?” Elementos para o analise etnomusicológico da Música de Filmes. Em: I Reunião Equatorial de Antropologia (REA) e X Reunião de Antropólogos Norte e Nordeste. Sergipe (AR). ISSN 1982-5145
9 Ibid.
10 Bernardo Rozo, 2007. “A Invenção do ‘Outro’. Músicas de filmes e construção de identidades urbanas” Em: 3º Encontro de Música e Mídia “As imagens da música”. Núcleo de Estudos em Música e Mídia. Sesc-Santos (SP).

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One Response to “Definindo o “Orientalismo musical” cinematográfico”

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