Extrativismo Cultural na Amazônia
Toni Soares
2 de Janeiro de 2008
Região bragantina, nordeste do estado do Pará, comunidade Jararaca, distante 220 km da capital Belém, numa casa de barro sentada num tamborete na cozinha de chão batido estava D. Percília terminando de bordar uns panos. Chaleira preta no fogão e mais ninguém na casa. Um sorriso acolhedor, característico dos moradores dessa região, e os braços abertos foram os sinais de boas vindas, logo me pedindo pra entrar e não reparar a casa humilde. Perguntei quantos anos tinha, disse não lembrar, mas aparenta ter mais de 80. Com gestos delicados começou a mostrar o que fazia: balaios e cestos da planta guarimã, porta guardanapos, toalhas e colchas feitos de retalhos coloridos de panos entre outros trabalhos… Faz tudo sob encomenda, mas às vezes não pagam pelo seu trabalho. Perguntei se ensinava alguém da comunidade a fazer os bordados. Respondeu-me que ninguém se interessava porque não tinha pra quem vender e quando vendia não recebia. D. Percília é um patrimônio vivo escondido do mundo.
Bragança, município dos mais antigos do estado do Pará, 394 anos de muita história e cultura. Distante 210 km da capital Belém. Há 209 anos é realizada a Festividade do Glorioso São Benedito. Essa festa começa com a partida de três Comitivas de Santo: A Comitiva do São Benedito das Praias. A Comitiva do São Benedito das Colônias; e a Comitiva de São Benedito dos Campos. Eles partem no final de abril e peregrinam até dezembro quando acontece a grande festividade na cidade de Bragança. São 8 meses andando de casa em casa, dia e noite rezando ladainha e tirando Folias para receber donativos para a festa. Não tem como descrever esse fenômeno misto de fé e cultura. A Marujada com todo seu esplendor das saias vermelhas rodando pelas ruas da cidade ao som da rabeca, tambor, reco-reco, banjo, tambor-onça e triângulo. Mais uma vez fé, tradição e cultura se misturam num espetáculo único, muito diferente da Marujada apresentada no nordeste do Brasil. Em Bragança, a Marujada descende dos escravos que construíram as igrejas do Rosário e de São Benedito.
Pé na estrada rumo ao município de Cametá, comunidade do Juaba. Lá vamos encontrar o Samba de Cacete e o Bambaê do Rosário. Mais uma vez a mistura de fé, tradição e cultura. Mais de 100 pessoas vestidas a caráter saem às ruas com os primeiros raios da manhã. É uma alvorada acordada pelos cânticos e toques de tambores. Uma cena mágica no meio das matas beirando os igarapés da Amazônia.
São três exemplos de muitos que ainda resistem nessa terra do Carimbó, do Bangüê, do cordão de pássaro, do boi-bumbá, do marambiré, do sairé.
Não precisamos do homem que chega para extrair pedaços desse tesouro para depois lucrar em outras regiões enquanto o Bambaê do Rosário, a Marujada, As Comitivas de São Benedito, a Dona Percília continuam com o olhar perdido no tempo precisando de ajuda escondidos no meio da mata. Não precisamos da mão que tira e deixa só o abraço do adeus. Não precisamos do ouvido que ouve e vai embora com um simples aceno de mão. Não precisamos dos letrados que chegam com suas parafernálias tecnológicas fotografando, gravando e filmando e vão embora depois de tomar nosso café com bejú sem olhar para trás.
Precisamos sim cuidar para não acabar. Precisamos da mão amiga que afaga e que é terna indicando e ensinando como sobreviver desse tesouro precioso. E são tantos tesouros por esse Brasil a fora que precisam do seu olhar, do seu afago e do seu cuidado para que todos possam sobreviver sem ser explorados, sem que sejam depredados e copiados.
Precisamos encontrar caminhos para revelar todo esse patrimônio imaterial de saberes ao mundo. Para que todos possam sobreviver de seus dons sem que sejam invadidos, mutilados ou o pior, exterminados.
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03-01-2008, 2:46
Toni,
O que vc acha dos grupos que trabalham sobre temas tradicionais, trazendo novas roupagens? É apropriação indevida ou não?
03-01-2008, 11:14
Acredito que a partir do momento que você trabalha um tema tradicional com novos arranjos e dá os créditos da fonte e, mais ainda, mantém contato com a fonte divulgando seus trabalhos para que outras pessoas tomem conhecimento da sua existência e, consequentemente, passem também a divulgar o trabalho daquela fonte, trata-se de um fortalecimento da cultura popular tradicional. O trabalho que o grupo cultural A Barca realiza é fantástico. Mapeando manifestções populares tradiconais portodo o Brasil, inspirado na expedição folclórica de Mário de Andrade, conseguiu revelar grandes tesouros para o Brasil e o mundo.
30-01-2008, 14:50
Toni, você viu essa notícia? O que você achou?
“CARIMBÓ
Gilberto Gil dá apoio a carimbó como patrimônio
Ele se comprometeu a colocar experiência do MinC a serviço da iniciativa dos paraenses.
O ministro da Cultura, Gilberto Gil, manifestou anteontem, em audiência com a governadora Ana Júila Carepa, em Brasília (DF), seu apoio ao projeto de tornar o carimbó patrimônio cultural do Brasil. No encontro, o ministro Gil aceitou o convite da governadora para vir ao Estado participar de uma agenda de eventos relacionados à cultura. O processo de registro do carimbó paraense como patrimônio cultural imaterial do Brasil está sendo encaminhado por técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), vinculado ao MinC, a partir da mobilização de entidades da região do Salgado, no nordeste do Estado. Sobre esse movimento para tornar o carimbó patrimônio cultural brasileiro, Gil pôs à disposição da iniciativa a experiência do MinC, uma vez que o Ministério já conseguiu tornar patrimônio cultural outras manifestações regionais, como o tambor de crioula e o frevo.
A iniciativa de buscar esse registro para o carimbó partiu da Irmandade de Carimbó de São Benedito, sediada em Santarém Novo, em conjunto com as associações culturais Uirapuru, Raízes da Terra e Japiim, de Marapanim, e da Prefeitura de Santarém Novo. Como relata o pesquisador e produtor cultural Isaac Loureiro, 33, a Irmandade tem mais de 100 anos e promove uma festividade em homenagem ao santo negro, em que o carimbó é elemento essencial. Essa festividade acontece de 21 a 31 de dezembro. ‘O carimbó é enraizado na cultura da comunidade de Santarém Novo, na região do Salgado, perto de Salinas. O carimbó da Irmandade, por ser um carimbó diferente, atraiu a atenção de
pesquisadores, músicos e artistas em geral, como foi o caso do grupo cultural de São Paulo ‘A Barca’, que em pesquisa sobre a cultura popular tradicional esteve em Santarém Novo, em 1999’.
O carimbó da Irmandade de São Benedito é o único de santo que sobreviveu entre os grupos que mantinha a relação da dança, música e a festividade religiosa. ‘O restante dos grupos foi proibido pela Igreja católica. Essa vinculação era mais presente no litoral do Estado, como Vigia, Marapanim, Curuçá, Maracanã e outros’. A relação do carimbó com o aspecto religioso tem a ver com a devoção dos negros escravos com São Benedito, santo negro da religião católica. ‘Quem criou o termo carimbó e o instrumento curimbó, que quer dizer, em tupi, pau que faz som , foram os indígenas, os tupinambás’.
Quando os negros vieram da África ao Brasil, encontraram no Pará povos indígenas tocando o tambor e com uma dança lenta. Os negros eram em grande parte da etnia banto, com forte musicalidade que se espalhou por vários centros do Brasil, legando ritmos como samba de roda, candomblé, tambor de crioula e o samba do cacete, vigente no Baixo Tocantins, em cidades como Cametá e Baião, nos quilombos. ‘Os indígenas tinham uma dança mais lenta, com os pés arrastados, e os negros introduziram o rebolado, o ritmo acelerado, então, o batuque deles, e dessa mistura de instrumentos e dança surgiu o carimbó. Antes, eram os recos-recos e as maracas, e com os negros vieram os tambores e outros instrumentos de percussão’. Os europeus acrescentaram instrumentos de corda e elementos de dança.
Como fruto da mobilização da comunidade de Santarém Novo, surgiu em 2002 um festival de carimbó, que resgatou grupos e mestres desse gênero musical, identificando mais de 100 grupos na região. No festival de 2005, técnicos do Iphan informaram à comunidade sobre a possibilidade de registro do carimbó como patrimônio cultural imaterial do Brasil, cujo pedido foi formalizado pelas entidades no final do ano passado e o inventário tem previsão de ser feito ao longo de 2008.”
25-11-2008, 17:32
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