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Início de papo - puro e diluído

TT Catalão
18 de Setembro de 2007

nota/cultura popular
debate/o puro e o diluido
debate

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Nossa panorâmica de temas é ampla. A pluralidade é ainda maior quando percebemos o quanto cada tema se desdobra em outro - seja por afinidade ou até pelo confronto. Assim, para início de conversa, vamos tentar fatiar o bolo para estabelecer (sem muito rigor) quais seriam os temas-eixo. Daí partir para os ramos, os desvios e até mesmos as descobertas surgidas no processo.

De pronto, dois temas quase cúmplices, residem na velha caricatura do “puro” e o “diluído”: é a apropriação da tradição e os impactos dos contatos entre tradição e, digamos, “visitantes” (ou invasores, ou diluidores, ou até extremamente bem intencionados acadêmicos, pesquisadores). Da primeira, brotam duas tendências: há os que tratam do popular apropriado com a aura de fetiche à beira do exótico; e os que realmente usam elementos da tradição e os recriam em outras linguagens diferenciadas que apenas “citam” ou “contenham” a base deglutida em obras novas.

Na outra ponta o impacto do contato. Pela pressão de massa, as comunidades não vivem mais em redomas e não há mais como “protegê-las” de influências sonoras, equipamentos que interfiram na estética, tentações de mercado pela sobrevivência (exige produtos assimiláveis e mais vendáveis), sugestões e forma visual, materiais distintos da realidade local, apelos diversos em muitos graus de complexidade.

Para início de papo teríamos um longo percurso no quanto essas comunidades têm o direito de assimilar e incorporar novas linguagens - às vezes para o desespero dos puristas, muito mais para o exercício de uma consciência culpada preservacionista ou para que o seu “objeto de estudo acadêmico” não seja maculado. E quanto às apropriações fica aquela incômoda sensação da “macumba pra turista” na velha linha formol do folclore para o consumo ralo de exotismo do brilho fácil como purpurina desbotada.

Artistas referenciais de uma tradução perfeita da tradição em produto: a vasta obra de Luis Gonzaga (ele próprio criando uma tradição adequada a industria cultural nascente nos anos 50 via Rádio Nacional); os choros de Villa-Lobos como perfeita leitura incorporada nessa ponte erudito e popular (mais as suas citações amazônicas); o Chico Science e o flerte eletrônico com o maracatu rural; a bandinha de pau, lata e papelão do Ponto de Cultura Museu Homem do Cariri em Nova Olinda-CE; o grupo de maracatu rural de chã de camará (zona da mata norte de Pernambuco) que não aceita a exclusão das citações (só os urbanos podem?) e uma noite, em uma festa de terreiro, seu terno “citou” a frase do Popeye quando come espinafre dentro da linha melódica, e a coisa se encaixou perfeitamente. Remeto a um símbolo adotado por Aloysio Magalhães e Lina Bo Bardi que exaltavam a invenção popular pela “lampadarina” (aproriação do bulbo industrial da lâmpada queimada, mais um recipiente de lata e se criava um fifó candeeiro pós-moderno). Ou os dinossauros de lata de bebidas feitos pelo Maurício de Santana do Araripe que além da escala perfeita encaixa as peças sem solda o que dá movimento sofisticado ao bicho. Criações e reinvenções na melhor voracidade antropofágica de Oswald que almoçava Sardinha à molho bispo e jantava rap com repente¹.

Maracatu na Teia

Maracatu rural de chã de camará - faz das rampas vanguardas do prédio da bienal uma ladeira de Olinda (cena na primeira Teia, encontro nacional de Pontos de Cultura no Ibirapuera-SP) - Foto TT Catalão.

Batera

Batera da banda lata-paupelão de Nova Olinda (CE) - Foto TT Catalão.

Latassauro 1

Latassauro 2

Os latassauros de Mauricio de Santana do Araripe - Foto TT Catalão.

Lampadarina

A lampadarina que Aloysio Magalhães (o criador de Centro Nacional de Referência Cultural que gerou o Pró-memória) e Lina Bo Bardi exaltavam - Foto TT Catalão.

Castiçal

O castiçal de lata de Lina Bo Bardi - Foto TT Catalão.

Boi plugado

O boi plugado do Crato - Foto TT Catalão.

Lâmpada

¹ Muitas das referências feitas no texto se relacionam à TEIA Cultural, iniciativa que juntou diversos Pontos de Cultura do Brasil.

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7 Responses to “Início de papo - puro e diluído”

  1. magda:

    TT, me impressiona o seu otimismo! Isso é muito bom. Enquanto só enxergamos o lado ruim das de tudo isso, vem voce, falando de coisas que estão fora da midia, mas que estão ai, acontencendo, vivas como nunca. Que bom que vc anda por aqui!!!

  2. magda:

    Trecho da entrevista do DJ DOlores a Revista AZougue.
    Há quase 15 anos, surgiu em Pernambuco o Mangue Bit, o movimento cultural de maior ressonância no Brasil nas ultimas décadas. O primeiro manifesto, assinado por Fred Zero Quatro, trazia trechos como “imagem-símbolo”: uma antena parabólica enfiada na lama, ou um caranguejo remixando Anthena, do Kraftwerk, no computador” . É evidente que a tentativa de conciliação entre uma cultura local e global. Qual você acredita ser a atualidade desse projeto?

    DJ DOLORES - Pouca ou nenhuma, porque o entendimento descambou para o ufanismo. Talvez na influencia sofrida pela geração posterior. Músicos assumidamente influenciados pelo Mangue Bit, se tornaram mainstream, como o Rappa, Marcelo D2, Seu jorge, e tem definido a cara do pop brasileiro contemporâneo. Sem contar com o Mundo Livre e o Nação Zumbi que continuam suas carreiras com um padrão de qualidade acima de média.
    O “manifesto” na verdade era um release, nunca foi manifesto, porque nunca houve outros “manifestos” debatendo a idéia, nunca foi movimento porque se tratava de uma coisa de amigos. O tal Mangue Bit foi algo tão cercado de equívocos nas suas intenções – cosmopolitismo, compartilhamento de informações, orgulho da própria identidade – foram mal compreendidas e virou discurso bairrista, argumento nacionalista, ufanismo e sectarismos afins, o oposto do que se propunha inicialmente. Mas garanto que a semente era melhor do que os frutos gerados.

    Dj Dolores
    Entrevista para a Revista Azougue n. 12 fevereiro de 2007 - Nomadismo/habitar

  3. magda:

    Globalistas buscam sons periféricos

    Materia Camilo Rocha Ilustrada 26/12/07

    http://wayneandwax.com/?page_id=2
    www.negrophonic.com
    www.maddecent.com/blog

  4. magda:

    Extratos de GANDRA, Edir - Jongo da Serrinha (Ed. GCE – RJ, 1995)

    “O Jongo já estava morrendo… Se nós aqui não avivasse ele, ele ia acabá de morrê mesmo, porque já ninguém num falava mais, muitos já num conhecia o que era o Jongo, porque há muitos ano que num ouvia falá; as criança, ninguém num cunhecia aqui o Jongo, né? Só depois que nóis pegamo a cantá e dançá aí eles pegaro a cantá. (…) Quando eu morrê eu já tô satisfeita, porque tem muitas criança que dança o Jongo, então eu já tô satisfeita.” (Vovó Maria Joanna)

    ________________________________________________________________________________

    “Nos espetáculos realizados fora da Serrinha, o Jongo é mostrado ao público da seguinte forma: inicialmente, tomam os seus lugares os instrumentistas e cantores, ou “pessoal da banda”, como eles dizem. Após ser anunciado o número, entra Darcy Monteiro no palco e toma seu lugar de regente, dando início à performance musical, ao mesmo tempo que também toca em um dos tambores o ritmo do caxambu.

    O som toma conta do ambiente através do ritmo desses tambores, demais instrumentos, e de uma melodia cantada em vocalise, composta para esse momento por Darcy e que serve de fundo musical para a seguinte definição da dança dada por ele, às vezes também em francês ou inglês, se na platéia houver grande número de turistas, ou o espetáculo for a estes dirigido.

    JONGO – expressão musical coreográfica que veio para o Brasil através dos negros bantos. Os versos do Jongo autêntico são curtos. Seus temas poéticos traduzem relações da vida cotidiana do homem em contato com uma vida de trabalho braçal. É dançado autenticamente por um casal de cada vez que se umbigam mutuamente, à distância, através da dança. O Jongo tem também seu aspecto místico. Diz a lenda que os antigos jongueiros, à meia-noite, ao mágico som dos tambores, faziam nascer bananeiras que germinavam e davam frutos como por encantamento. No Jongo de hoje, evidentemente, não chegamos a tanto, embora continuando a ter um respeito profundo por essa dança, devido ser um das mais profundas raízes da manifestação da cultura negra no Brasil. O Jongo é uma dança séria, em que nosso corpo e nosso ritmo falam de nossas almas. (Darcy Monteiro)

    Deve-se ressaltar na definição de Darcy: ele faz questão de anunciar a origem africana banto, valorizando o que o Jongo tem de “exótico”, ao mesmo tempo em que dignifica sua descendência negra; ele previne o espectador de que o que verá é um Jongo profissional, mas que ele conhece o Jongo autêntico. Ele se qualifica para transmitir a dança – é um conhecedor. Ele menciona a magia – aspecto místico – novamente para criar um clima de exotismo. Finalmente, é algo que está relacionado às autênticas raízes da cultura brasileira. Darcy demonstra ser um hábil empresário do grupo. Este tipo de espetáculo “étnico”, “de raízes”, é muito procurado pelos turistas. (p. 92)

    O Jongo da Serrinha é hoje um grupo de espetáculo. Raramente acontece uma noite de Jongo na Serrinha. Isto ocorreu, depois da profissionalização, algumas vezes no aniversário de Vovó Maria Joanna [texto de 1986]. Mesmo nessas ocasiões, um dos objetivos era a divulgação da dança, tendo sido convidados artistas e jornalistas. Na oportunidade, o Jongo era aberto à comunidade, podia ir quem quisesse. Não tinha o caráter de evento restrito aos jongueiros e seus convidados, como antes. (p.95)

  5. Adriana Fernandes:

    Efeitos da migração na música e na dança de forró

    O objetivo deste trabalho é analisar o diálogo estabelecido entre a música e a dança de Forró, seus praticantes, e o estrato social no qual eles estão mergulhados, dando subsídios para um melhor entendimento dos fatores que envolvem as migrações para as grandes cidades, não só de pessoas como também de suas expressões artísticas, e a intervenção/ participação da cultura cosmopolita, citadina, dentro deste processo.
    Palavras-Chave: Forró. Migração. Classe baixa. Moderno.

    O deslocamento espacial de seres humanos é um fato que está intrinsecamente ligado ao povoamento do planeta, às modificações genéticas sofridas pela espécie, a diversidade de agrupamentos culturais existentes, às condições geo-climáticas, sociais, econômicas e políticas, além das vontades individuais e, porque não dizer instintivas, dos seres humanos de aventura, exploração e conhecimento, a exemplo de outros animais. As teorias sobre a migração humana tendem a explicar as razões das migrações muito racionalmente sob o ponto de vista principalmente econômico e político (Wilson 1993; Kearney 1986; Matos Mar 1961; Pearse 1961) deixando encoberto este último aspecto exatamente devido ao seu aspecto imprevisível e imponderável. No entanto, ao conduzir trabalho de campo no meio de uma comunidade de migrantes nordestinos em São Paulo, capital, de 2000 a 2001, a vontade e a pré-disposição individual ou coletiva de migrar foi detectada como a principal razão para o deslocamento. Neste caso há todo um preparo e planejamento para tamanha empreitada, e, por exemplo, faz–se necessário trazer na mala o instrumento que toca, ou os discos que mais gosta, ou o ingrediente específico de uma determinada comida. Foi isso que aconteceu com o Forró, um gênero musical dançante, eminentemente nordestino, ligado aos festejos juninos e as festas de comemoração da colheita de milho. Ele veio na mala junto com o acordeom, a zabumba, o triângulo, o pandeiro, a rabeca, o violão, e impresso na identidade cultural do indivíduo migrando em direção a São Paulo.

    Este estudo dá um pequeno exemplo de como, no processo de migração, um ingrediente cultural, no caso o Forró, acompanha o migrante para o local de destino da migração e o ajuda a se adaptar ao novo ambiente quando ele próprio, o Forró, sofre mudanças e adaptações. É uma relação dialética que se estabelece entre o nordestino migrante e o Forró que ele pratica, pois à medida que são criadas novas relações no novo contexto social, também novos elementos vão sendo acrescentados ao Forró e vice-versa.

  6. Carlos:

    como vc fez essa bateria por favor fala????
    abração de carlos

  7. zghlfypojqt:

    CIHVZD ujwoalbziopa, [url=http://wiqubpzdfkgq.com/]wiqubpzdfkgq[/url], [link=http://vrbtnwkbsusq.com/]vrbtnwkbsusq[/link], http://wjoayjypxehd.com/

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