O Outro
Bernardo Rozo
14 de Maio de 2008
O Outro é uma categoria analítica extensa e criticamente problematizada em várias formas de pensamento intelectual contemporâneo, no intuito de descobrir o impacto que este teve na construção social e histórica da Alteridade por parte de uma “histórica equação”: o regime masculino-branco-cristão-ocidental. A construção destas representações servia e ainda serve às diferentes estruturas de poder, configuradas sob tais características, para consolidar a dominação de tudo aquilo que resulta diferente ao padrão aceito, ou seja, o universo dos indígenas, dos pretos e mulatos, das mulheres e dos homossexuais, dos ciganos, profanos, politeístas e mundanos, dos sudacas, os imigrantes, os camponeses e os ilegais; e assim por diante.
Esta categoria é tratada nos trabalhos publicados e nos debates realizados desde os Estudos Culturais, a Crítica feminista intercontinental; os Estudos Islâmicos, Asiáticos, Caribenhos e Japoneses, também na Filosofia Africana, assim como também nos Estudos Latino-americanos, a Crítica Psicanalista, o pós-estruturalismo, a Desconstrução, a Crítica literária, entre outros.
Embora seja um assunto muito estudado, não deixa de ser ambíguo, escorregadio e dificilmente operável. Ele foi usado originalmente pela antropologia das antigas viagens exóticas, para designar a alteridade cultural que aos poucos ia encontrando (ou legitimando a sua existência), e o fazia em termos já seja da distância ou da diferença. Também a sociologia serviu-se do termo para referir-se à configuração da consciência de um indivíduo através da sua socialização (o “outro” generalizado), ou ao condicionamento que um sujeito ou grupo faz sobre o comportamento ou a ação de outro sujeito ou grupo (o “outro” significante).
No meu caso, quero revisar brevemente a idéia do Outro, a partir do efeito que a sua formação no individuo tem, tanto sobre o imaginário social, quanto sobre as representações sociais ligadas à música. Nesse sentido, vou recorrer à definição lacaniana: o Outro como um dos pólos da dialética sujeito/objeto, como a inscrição da relação sujeito-outro (amo-escravo) dentro de um campo de conflitos dominado pelo desejo mútuo de reconhecimento (“o desejo do homem é desejo do outro”).
Apesar da nebulosidade que rodeia o termo, a definição psicanalítica possibilita considerar a idéia do Outro (escrito assim, com maiúscula) como uma categoria na qual se cristaliza um fenômeno social que aparece claro, evidente e, sobretudo, vigente nas sociedades de hoje em dia, sobretudo, aquelas que vivem os encontros e desencontros multiculturais nos conglomerados urbanos que as abrigam. Refiro-me ao fenômeno no qual se transformam às pessoas e/ou grupos humanos em coisas, representando-os já seja através de um ícone, uma palavra, um símbolo, uma idéia codificada, ou qualquer outro recurso que se prefigura de acordo a uma série de construções sociais, que antes de tudo, são arbitrárias.
Embora este fenômeno seja social e historicamente construído, e mesmo que devamos lembrar que justamente é a diferença o elemento histórico que fez com que os grupos humanos se encontrassem, também é fundamental reconhecer que o tal fenômeno tem a tendência de se “normalizar” no cotidiano, isto é: estamos cada vez mais acostumados a viver junto com ele.
Falar do Outro, da alteridade, não requer ingressar na discussão sobre as diferenças culturais entre os seres humanos. Antes bem, meu propósito é começar a reconhecer o peso político que a fórmula o desejo do homem é desejo do outro tem, na atualidade, principalmente nos usos que se fazem da música nos filmes. O analise das implicações do Outro, na relação música-cinema, me permite observar um problema que é estritamente de relações humanas e como elas são representadas nos códigos cinematográficos e musicais.
Através deste tipo de exame, podem reconhecer-se com nitidez as variadas formas com que o problema do Outro é ainda vigente na atualidade, quando na globalização se concentram cada vez mais os poderes nas indústrias culturais e se incrementa ainda mais a força de simulação da realidade nas imagens e o espetáculo. Um exame destas proporções talvez pudesse nos ajudar a situar-nos como um “nós” em função daqueles com os quais compartilhamos os nossos dias neste planeta e ver-nos naquele espelho interminável que reflete as relações entre os seres vivos.
Na colaboração seguinte, pretendo então, aprofundar neste exame, atendendo a necessidade de falar dos “Outros Cinematográficos” e, logo depois, dos “Outros Musicais”; mas, começarei situando essa fala a partir de minha própria condição de sujeito migrante e, certamente, desde as valiosas contribuições de autores como Bruno Nettl (2003), Philip Tagg (1996), Pablo Vila (1996), Piera Sarasini (1998), Gordon Lynch (2006), Rebecca Graversen (2001), Matthew Head (2003), Johannes Fabian (2006), dentre outros. Até breve.
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12-09-2008, 11:17
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