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Composição - um lugar ainda pouco feminino

Socorro Lira
6 de Janeiro de 2008

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Sou instigada a tocar uma questão que passa ainda meio que “despercebida”, tanto no meio artístico quanto no debate oficial sobre música, arte e cultura de uma maneira geral.

Por razões históricas dignas de investigação para uma compreensão mais justa, as mulheres, durante séculos e em várias partes do mundo, estiveram à margem dos espaços públicos, assim como das decisões acerca desses. O recinto doméstico lhes foi imposto em contrapartida.

No que diz respeito à criação literária e a composição propriamente dita, acontece o mesmo que em outros segmentos da vida social e cultural.

Como exemplo, cito dois casos em que não compreendo a (quase) ausência das mulheres enquanto criadoras.

Recentemente, assisti a um documentário sobre o “Cururu” – o repente de viola do interior de São Paulo. Ali, não pude ver nenhuma “cururueira”. Será que não há mulher cantando cururu ao som da viola caipira? E se não há, a quê se deve isto? (No Nordeste brasileiro, por exemplo, Mocinha de Passira, repentista, é lenda por sua teimosia).

A outra constatação que faço é de que ainda há um certo barateamento ou vista grossa em relação a criação poético-musical feminina, desde as ditas compositoras da tradição, passando pelas que fazem a chamada MPB até as que, em menor número - embora existam - compõem a chamada música de concerto. Estranho, não?

Por que as mulheres, durante tanto tempo, no Brasil (com raras exceções), foram senão intérpretes das impressões poéticas e aspirações dos homens? Por que elas mesmas não dizem, com as próprias palavras, o que sentem e pensam do mundo em canções? E quando dizem, por que não são escutadas?

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30 Responses to “Composição - um lugar ainda pouco feminino”

  1. Badu:

    Parabens a essa Paraibana de valor, valente, desbravadora, talentosa, SOCORRO LIRA.

    INFELIZMENTE a nossa sociedade “terceiromundista” ainda guarda ranços machistas, do tempo em que a mulher servia somente pra dizer “pra dentro menino(a)” alem de fabricá-los, limpar os cocôs e criá-los.
    FELIZMENTE o trio: Informática, telecomunicaçao e camisinha está revolucionando o mundo e a mulher marcha a passos largos nao só pra equilibrar, mas pra inverter o jogo. “Quem viver, verá”

    Badu

  2. ria lemaire:

    Socorro!
    O lindo livro da Sophie Drinker, Women and Music, que lhe mostrei aqui em minha casa, fala sobre isso. Desde a Antigiguidade grega até hoje! E lindo!
    Abraço
    Ria

  3. Ivan Manoel Ribeiro Teixeira:

    Correto. A paraibana está certíssima em seu ponto de vista, e não perde a sua feminilidade ao tratar de questões tão espinhosas, não é Badú?

  4. Socorro Lira:

    Obrigada, Ivan e Badu, pelos incentivos conterrâneos!

    É isso aí, Ria Lemaire, há muito ainda por fazer!

  5. Conceição Araújo:

    Estimada Socorro:

    A questão da composição (feminina) é por que, na minha opinião, tem um acentuado gosto
    e cuidado ao escrever,ou seja, antes de expor passa por uma análise estética e morfosintáti-
    ca rigorosa. Talvez por isso demore vir à luz. Quando sai explode em estrelas.

    Um grande abraço da Profa. Conceição do Instituto Histórico do Cariri. Lembra-se?

  6. Socorro Lira:

    Caríssima Profa. Conceição
    satisfação em receber seu comentário.
    Naturalmente! Quando falamos aqui em composição feita também por mulheres - isto que vimos ensaiando, re-aprendendo depois de séculos de silêncio – falamos de um saber que é da mesma ordem do das mulheres (e homens) que curam, das rezadeiras de Boa Vista (PB), ou seja, o saber que está na vida, no dia-a-dia do povo e quase sempre longe das estantes . Saber este cada vez mais necessário Humanidade, que se acha completamente sem rumo, nesse momento.
    Um abraço de luz, amiga!

  7. Conceição Araújo:

    Queria Socorro de muitas Liras…

    Fiquei feliz com sua resposta.
    Ainda sobre a questão da mulher no mundo das artes. Estou até sendo otimista de
    as coisas estão mundando, mesmo que devagar. Com certeza dias melhores virão!
    No ano passado consegui um livro de Marilena Chauí onde ela se dizia resgatada de
    uma ofensa ou afronta de um professor seu ao entrar na Universidade: o fato se deu numa
    sala de aula onde o mesmo explicitou que lugar de mulher é na cozinha… Ela ficou da-
    nada da vida e não respondeu…Como se cozinha fosse um lugar menor…
    Fato é que ela e sua publicaram um belo livro de receitas: Professoras na Cozinha. Lindo!

  8. Nelsinho Moralle:

    Socorro, meu anjo do agreste esse humilde poeta compartlha com a causa feminina e estou sempre
    a disposição para que a luta feminina não seja um batalha em vão!!!

  9. Socorro Lira:

    Querido poeta,
    É bom quando você aparece!
    Claro, sei de sua dedicação à vida!
    E cada atitude em benefício desta, digo da Vida - para que esta aconteça mais harmoniosamente – é causa, é bandeira de homens e mulheres.
    Um grande beijo!

  10. Socorro Lira:

    Profa. Conceição
    Sua contribuição é sempre bem-vinda à nossa prosa.
    Pois bem. A propósito de “lugar de mulher” e de cozinha, penso agora nessa coisa de desqualificar aquilo que incomoda e ameaça, de alguma maneira.
    Explico: para desacreditar, para desmoralizar uma pessoa nada melhor do que dizer que ela é “doida”. Quem acredita em um “louco”? Assim são os poetas, por exemplo, ignorados em suas “pequenas” verdades.
    Então, se o espaço doméstico é, historicamente e há séculos, imposto à mulher; e se a esta [Mulher] é negada a sua autonomia, direito à fala (pode até cantar, desde que não pense), é simples rebaixar tudo o que lhe diz respeito, e com ela, à condição de subcategoria. Assim é que a cozinha – a meu ver um dos melhores cantos da casa – tem ínfima reputação.

  11. Socorro Lira:

    Querida Socorro de mil liras e cantares:

    Prabéns pelo resgate das cantadeiras e dançadeiras de sua Aldéia!!!!!!
    A Galícia de tantos cantos e poesias irá se encantar com a sua música e seus trinados.
    É o canto da Terra e a Poesia deste mulher telúrica a rimar com o coletivo carente de
    ressurreição.
    É este o sue detino !
    Cordialmente: Profa. Conceição.

  12. Lina:

    Mulheres competentes e talentosas não faltam. Falta mesmo é mexer na estrutura machista
    não somente do Brasil mas do mundo. Chega a ser uma contradição: mulheres investem mais na
    própria educação(somos maioria nos Mestrados e Doutorados da vida),somos maioria no mercado de trabalho
    e ganhamos menos.Já conseguimos ocupar a maioria dos espaços mas visibilidade
    que é bom,só com nossa persistência e garra vamos conseguir. Discussões como esta só
    nos fortalecem.Parabéns,Socorro.

  13. Socorro Lira:

    Lina,
    obrigada por sua colaboração na discussão.
    Esse assunto - os direitos humanos das mulheres me é muito caro, até por vir de onde venho, o sertão, onde as coisas mudam ainda muito lentamente.
    Discutir a igualdade de direito entre as pessoas é um dever nosso, enquanto formadoras de opinião e cidadãs/cidadãos, enquanto tivermos alguma lucidez. E feminismo enquanto engajamento político de libertação da mulher é assunto especialmente para homens… será preciso estender essa discussão também a eles. Tarefa nem tão fácil, pois até às mulheres o assunto causa estranhamento.
    E você, em sua função de comunicadora, tem ajudado nisto.
    Tem um livro de qual gosto muito “A mobilidade da Senzala Feminina”, de Invone Gebara (Edições Paulinas), que trata generosamente da questão. O pensamento de Ivone “virou” minha cabeça na minha juventude. Depois que li essa filósofa – tive o privilégio de ter algumas aulas com ela também – nunca mais, de um dia para o outro, sou a mesma pessoa.
    Um abraço de luz, querida!
    Socorro Lira

  14. RaimundoQuixabeira:

    Grande Socorro Lira (Socorro Marcolino?). Tú, a melhor compositora de letra e música do Brasil
    tem toda autoridade do MUNDO para tocar nesse assunto. Enquanto houver capitalismo, ha-
    verá machismo obrigando as mulheres a serem reprodutoras de mão-de-obra barata para a
    sua enorme mais-valia. Só a luta organizada da classe trabalhadora poderá ser também a
    conquista da liberdade das mulheres para sua formação cultural e política. Um grade Beijo!

  15. Socorro Lira:

    Caro Raimundo
    Obrigadinha pela presença!

    É verdade que o capitalismo, com seus benefícios e mazelas, é causa de muito sofrimentos para homens e mulheres. Já passa do tempo de se superar qualquer tipo de opressão, se temos tantos meios de entendimento… Mas “é a humanidade e sua pata pesada”…

    Entretanto, sabemos que a cultura patriarcal - que traduzimos de uma forma simples como machismo - é anterior ao capitalismo e essa forma de dominação do homem sobre a mulher, está presente em quase todos os lugares da Terra.

    As grandes batalhas das mulheres começam em casa e seguem para o espaço publico já conquistado. Em casa, com as duras e desvalorizadas tarefas domésticas; na rua suportando agressões e cantadas deselegantes e os baixos salários… Enfim, os homens (e as mulheres também) precisam ser re-educados sob novos paradigmas, para saberem que não podem mais apertar uma mulher no banco do ônibus, que não podem mais violentar uma mulher, que não podem mais bater na companheira, por exemplo.

    Na criação musical e literária, há muitos desafios e um deles é convencer o mundo de que também sabemos alguma coisa, aí.

    Igualdade de direitos para mulheres é uma luta de mulheres e homens, com certeza.
    “A Mobilidade da Senzala Feminina” um livro de Invone Gebara, é uma bela contribuição nesse sentido.

    Um abraço e seja bem vindo!
    Socorro Lira

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